Tabula Rasa

Junho 26 2009

Quem nunca se sentou à mesa do Café “Piolho” na Praça de Parada Leitão no Porto e pediu um café não sabe o que está a perder! Não falo apenas da qualidade do café servido mas, principalmente, do ambiente histórico que se respira, do movimento vibrante que impera, da juventude que faz dele a sua segunda casa, dos mais velhos que fizeram dele a sua segunda casa, da boa energia que paira no ar, da casa cheia que transborda para o passeio apinhado às sextas e sábados à noite, das tertúlias que lá se fizeram, das tertúlias que lá se farão, dos namoros que pairam no ar, dos estudantes Erasmus que o preenchem de múltiplos idiomas, dos bons petiscos a fumegar e, sobretudo, da forma como tudo isto coexiste pacificamente transformando o ambiente numa experiência que queremos repetir vezes e vezes sem conta.

Conhecido como um café de estudantes oriundos de diversas faculdades (sobretudo de Ciências e de Medicina), palco de debates e “conspirações” anti-fascistas nos tempos da ditadura, local de reunião de intelectuais e artistas de várias gerações, o “Piolho” acompanhou períodos fundamentais da história da cidade do Porto, como se pode ver pelas inúmeras placas de mármore ou ardósia colocadas nas suas paredes, oferecidas por todo o tipo de clientes.

Mas, para espanto de muitos, o Café “Piolho” não se chama mesmo assim e quem o procurar por este nome num reclame não o encontrará.
Efectivamente, o nome originário do café é Âncora D’Ouro e este nome sobrevive ainda hoje bem patente no amplo letreiro colocado na sua fachada.
Mas como é que este local mítico e já ex-libris da cidade ficou conhecido nacional e internacionalmente pela simples designação de “Piolho”? Bom, esta questão apresenta duas versões de resposta: a primeira, prende-se com o movimento do café que diziam ser tanto e com tanta agitação que todos o alcunhavam de “piolhice”. Na segunda, foi a frequência do café por alunos universitários e por professores que originou a expressão de “piolhice”, na medida em que a convivência académica era um tanto ou quanto cerimoniosa (1).

Seja como for, o “Piolho” está vivo e recomenda-se e continua a “piolhar” tão vigorosamente como quando foi aberto em 1909!
É verdade, parece impossivel, mas este lendário café completa já 100 anos dia 26 de Junho. São 100 anos que, para quem os viveu nas suas mesas, para quem os sentiu em cada café tomado, em cada conversa mantida, em cada beijo dado, parecem 100 dias!
Mas não, são mesmo 100 anos! 100 anos de convivio, 100 anos de amizade, 100 anos de diversão, 100 anos de cultura, 100 anos de activismo, 100 anos de amor, 100 anos de muitas vidas que ficaram mais ricas naquele espaço!
100 anos que se comemoram hoje com o “piolhar” caracteristico de há 100 anos atrás graças à profissional e apaixonada dedicação da sua actual gerência composta por José Martins, Edgar Gonçalves e José Pires que souberam devolver ao “Piolho” as suas origens, trazendo ao seu meio mais estudantes, tornando as noites mais quentes com fados, tertúlias, recitais de poesia e descerramento de placas. 100 anos inolvidáveis!

Fonte: Bicafé

publicado por Cristina às 23:14

Gostei muito do post Cristina!:)
E parece que me cheira a café. Acredita que nunca lá entrei?!
Lúcia a 27 de Junho de 2009 às 22:36

Fui lá muitas vezes, enquanto estava na faculdade, era um dos pontos de encontro, juntamente com o Café Luso (que já não existe...).
Voltei lá, depois, e já não gostei da sensação. Para mim é um dos sítios marcados pela vivência universitária e que, sem ela, não fazem sentido.
De qualquer forma, merece uma visita!!!
:-)
Cristina a 28 de Junho de 2009 às 20:33

Tive a sorte de "cursar" na faculdade mesmo ao lado, sendo que no meu 6º ano, às 8:00, o "Piolho" era o ponto de encontro para mais dois ou três amigos. Aquelas conversas, naquele sítio, eram um dos pontos altos do dia e, agora, são sempre alvo de referência quando esse mesmo grupo de pessoas se junta, num movimento saudosista. Agora, continuo a passar por lá, não com a mesma frequência, nem com o mesmo tempo e disponibilidade. É um facto: o "Piolho" está diferente, modernizou-se, e perdeu algum do seu carisma. Ficam as memórias daquele que será o "nosso Piolho", e as placas que ainda perduram, penduradas nas paredes.

FNY
FNY a 28 de Junho de 2009 às 21:19

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