Tabula Rasa

Março 22 2009

 

 

O contributo de V.O.J.

 

 

por sobre o teu corpo
corre um rio translúcido
e há uma canção muito alta
a querer trespassar o nevoeiro


por dentro do teu corpo azul
passa um rio interminável
e uma garganta tenta acender um som

ténue como uma lâmpada

 

por debaixo da tua língua

passa toda a minha biografia
em busca da casa alta, a que fica
junto ao rio, dentro do corpo

por sob a casa passa o rio
de nós juntos, o que une a cabeça
aos pés do casal deitado.
e o mármore místico das figuras.

 

dentro da boca entreaberta
fios de som azul tentam unir-se
numa canção que chame o nevoeiro
que faça correr a água

que faça correr a casa
e os sifões de rios que sob ela passam
noite e dia, do passado para o futuro
e de cima para baixo, em queda ou voo

 

bebemos pela mesma garganta
essa água azul, esse sangue interminável
que nos atravessa o corpo, a casa,
e queremos encontrar o chão onde unirmos

o grito ao nevoeiro
o espasmo ao espanto
as cores, as luzes, as geografias.

as tuas peúgas ficaram caídas
sobre o livro meio aberto

entre paredes de cal, no chão,
procuramos o local mais propício


enquanto um silvo tenta erguer-se
noutra época

entre os candeeiros acordados,
ou um som de comboio aéreo
atravessa o meio da noite;

e sob os seus rails passa um rio;
e sob o seu rio está a casa;
e sob a casa estamos os dois inumados.

mas passa o nevoeiro, sempre,
sobre a nossa confusão.

V.O.J. (Março 2009)

publicado por Cristina às 07:41

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